quarta-feira, abril 01, 2015

Tijolo de lado, livro na mão

Treze trabalhadores da construção civil participaram de formatura do Ensino 
Fundamental nesta terça-feira, 31 de março, no Mundi Consciente Square.
Eles integram o Programa de Ensino de Jovens e Adultos, implantado na própria obra
para incentivá-los a estudar após o expediente e recuperar o tempo perdido.
Ensino Médio continuará acontecendo no mesmo local.



            Recentemente, o carpinteiro piauiense Luís Carlos Neves Nogueira, de 41 anos, compareceu, cheio de orgulho e emoção, à formatura do filho mais velho no curso técnico de agronomia. Casado e pai de cinco filhos, o operário sempre sentiu a falta que o estudo lhe fazia. “Meu sonho era formar em alguma coisa, então transmiti isso aos meus filhos”.
            Na terça-feira (31/3), a situação foi inversa. Serão os filhos e a esposa que estarão na plateia aplaudindo Luís Carlos, que irá concluir o Ensino Fundamental. Ele, que criança teve de parar de estudar para ajudar a família a se sustentar, finalmente realizou o sonho que, durante um tempo, chegou a ser uma utopia.  “Além da nossa situação ser difícil, para completar, não tinha escola perto de casa”, recorda-se.
            A formatura aconteceu no próprio canteiro de obras da Consciente Construtora e Incorporadora onde ele trabalha, o Mundi Consciente Square, onde foi montada uma escola para atender aos trabalhadores depois da rotina de trabalho. Ele, que havia interrompido os estudos no 5º ano, participa das aulas desde 2010.
            Após o banho e o lanche, o foco deixava de ser os tijolos e o concreto da obra para ser os livros. “No início, tive muitas dificuldades em Matemática, mas graças à persistência e dedicação dos professores, hoje tenho mais intimidade com os números”, conta.
            A história de Luís Carlos ilustra o atual cenário da educação no Brasil: quase a metade da população brasileira não concluiu nem mesmo o Ensino Fundamental, a etapa básica nesta escala do conhecimento. São 49,25% que estão nesta situação, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Na construção civil, o índice é ainda menor: somente 26,5% possuem esta escolaridade.
            Ensino público precário, crianças fora da escola, alto índice de evasão escolar são alguns motivos que levam a este cenário. Na direção contrária, ações pontuais têm sido relevantes para se reverter esta situação. Uma delas vem sendo praticada pelo setor da Construção Civil, proporcionando aos operários adultos a oportunidade de voltar aos estudos.
            “A formatura é uma vitória muito grande para eles, pois é muito difícil enfrentar uma rotina de trabalho pesada e ainda dedicar-se aos estudos”, diz o coordenador de responsabilidade social da Consciente Construtora e Incorporadora, Felipe Inácio Alvarenga, onde o projeto Ensino Consciente acontece desde 2009.
            Trazer a escola para o canteiro de obras foi a logística que favoreceu a continuidade da turma, pois eliminou fatores que normalmente levam à evasão. “A maioria dos trabalhadores moram distantes. Então, o tempo de deslocamento para chegar em casa e jantar antes de ir para a escola e o cansaço que vem no final do dia durante o trajeto são desencadeadores da desistência”, complementa.
            Para o presidente da Consciente, Ilézio Inácio Ferreira, a iniciativa das construtoras goianas vem fazendo a diferença para este público. “O crescimento profissional decorrente do processo de escolarização é apenas um dos benefícios. O que acontece é uma grande revolução na vida do indivíduo, uma repercussão em sua dignidade no sentido mais profundo da palavra”, considerou.
            No dia a dia, Luís Carlos conta que muitos de seus companheiros falam em voltar para a escola. No entanto, a rotina cansativa é vista por eles como um empecilho, que ele garante ser passageiro. “Como a escola fica dentro da obra, é bem mais fácil. Além disso, compensa muito estudar, pois o mundo é de quem sabe das coisas e a gente pode melhorar de vida, inclusive dentro da empresa”, conclui. Hoje, Luís Carlos voltou a sonhar. Um dia, ainda quer chegar à universidade de Engenharia.

            O projeto da Consciente faz parte do Programa Ensino de Jovens e Adultos (EJA) do Serviço Social da Indústria (Sesi), que o desenvolve em parceria com empresas da construção civil e de outros segmentos. Desde sua implantação em 1965, mais de 190 mil alunos - só em Goiás - já foram atendidos. Em 2014, o programa realizou 11.356 matrículas, e, até fevereiro de 2015, foram realizadas outras 2.440 inscrições.

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